segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Casal de Vale de Ventos - História e Monumentos


Os monges cistercienses, que o Engº Joaquim Vieira Natividade inteligentemente baptizou de monges agrónomos, administraram com sapiência os territórios que lhes foram confiados. Para além das terras que entregavam aos povoadores a troco de um foro, criaram inúmeras granjas (a área de reserva da Abadia) que com as suas próprias mãos cuidaram e amanharam.

Cada granja era um microcosmo cultural, com a sua vinha, os pomares de espinho, caroço e pevide, o olival, as terras de pão e um conjunto de meios de produção/transformação como lagares de azeite e vinho, fornos de cal, pisões, moinhos, entre outros engenhos.

No lugar de Vale de Ventos, localizado na freguesia de Turquel, existe ainda uma propriedade agrícola, a Quinta de Vale de Ventos, que é um imóvel muito antigo, em vias de classificação pelo IPPAR. Constituiu outrora um couto agrícola dos Frades de Cister, conservando ainda vestígios deste seu passado, como é o caso de dois grandes reservatórios de água, em pedra, que abasteceriam a herdade.

A Quinta de Val Ventos (século XVIII), como era outrora chamada, é uma das granjas mais modernas na longa história de vida dos Coutos de Alcobaça. Nesta granja mandam os cistercienses plantar o mais extenso olival dos coutos que, segundo a avaliação dos louvados (1834), possuía 60.000 pés de árvore dispostas numa matriz geométrica, cujo compasso mandava a distância de nove metros entre árvores contra dezassete metros de fileira a fileira.

Para arrecadar a produção deste magnífico olival, que em anos de safra generosa alcançava as 70 pipas, no fresco rés-do-chão do celeiro dispunha-se o armazém de azeite com as suas 23 pias (actualmente só restam 19), com a capacidade estimada de 166 pipas (assim se podia almudar o azeite proveniente do quinto da azeitona e do dízimo da maquia).

Destaca-se ainda nesta Quinta, as Obras, nome porque ficaram conhecidos os gigantescos reservatórios de armazenamento das águas pluviais, a Pia da Serra que abastecia de água os pomares de limas e laranjeiras doces assentes na encosta, a extensa eira quadrangular para debulhar os milhos e leguminosas secas que se cultivavam num ciclo de três em três anos nas terras de olival e o pombal (já para não falar do complexo habitacional e Igreja).

No ano de 1765 edifica-se nesta granja o maior colmeal dos Coutos. Situado numa encosta virada a nascente, os covões de abelhas instalavam-se em patamares servidos por uma escadaria lateral. O muro apiário com 2 metros de altura cercava uma superfície com 20 metros de largura por 20 metros de comprimento. O murado abrigava os cortiços e colmeias dos ventos gélidos, servia de barreira a fogos e protegia do ataque de texugos e doninhas, entre outros animais, responsáveis por estragos consideráveis nos enxames. Para manter os enxames saudáveis durante o Inverno, depositavam junto aos cortiços tigelas com castanhas piladas cozidas. As artes da cresta realizavam-se no mês de Junho, mas quando convinha reforçar a enxameação a cresta era bienal.

Graças a esta actividade abundava o mel de tão grande utilidade no receituário de doces e também noutros pratos requintados, nas bebidas fermentadas, na arte terapêutica… O mel da Serra (mel de alecrim) era mesmo considerado o mais claro que se produzia em Portugal.

Tendo sido uma das grandes granjas dos Monges de Cister, após o abandono devido à extinção das ordens religiosas em Portugal. Passou depois a ser propriedade do Marquês de Rio Maior e mais tarde, viria a pertencer ao Conde de Azinhaga.

Devido à sua localização nas faldas da Serra dos Candeeiros e com uma enorme área, quase tudo ali se produzia e transaccionava, criando, assim, muitos postos de trabalho, para além dos trabalhadores sazonais que vinham de longínquas terras. Trabalhavam permanentemente cerca de 20 homens nos serviços agrícolas, e cerca de 15 mulheres. Havia outras pessoas que ali residiam para uma melhor assistência aos numerosos animais de trabalho e transporte, assim como para diversos serviços domésticos.

Na Quinta de Vale de Ventos tudo se fazia duma maneira autónoma: existia a habitação com uma capela anexa, dedicada a Nossa Senhora, várias arrecadações, uma abegoaria (conjunto das alfaias de uma propriedade agrícola), uma oficina de carpintaria, um lagar de azeite, uma eira, depósitos para armazenagem de águas pluviais, fornos de cal, cortiços para abelhas, etc..

Dotada de um grande olival, era necessário recorrer a outro pessoal, aquando da sua colheita. A azeitona colhida era moída no lagar, movido por uma vara comprida, que era puxada por um boi em volta do engenho. As galgas (mós) trituravam a azeitona, sendo depois a massa colocada em ceiras, que eram comprimidas nas 4 prensas existentes através de 4 grandes pesos de pedra, colocados nas suas varas. Os lagareiros executavam as tarefas relativas à saída do azeite, o melhor que lhes fosse possível, pois daí dependia a sua boa qualidade. O azeite saía para as tarefas de chapa, sendo depois armazenado em pias (vasilhas de pedra) até ser vendido. A produção da azeitona era cerca de 160 carradas.

O mel mais claro do nosso País era ali produzido. Existia uma grande quantidade de abelhas colocadas em 400 cortiços, cuja produção atingia 12 almudes por ano. Os cortiços eram ali fabricados pelo pessoal assalariado, visto que existia muita cortiça. Este serviço era feito à sombra de uma oliveira que estava próxima. No local do colmeal foi mais tarde plantado um eucaliptal.

Devido à existência de um grande reservatório de águas pluviais (Obras), era possível proceder à rega dos diversos produtos hortícolas, utilizados na alimentação dos residentes da Quinta. Havia outro reservatório mais pequeno para captação de águas utilizadas na confecção de alimentos.

Como a Granja tem uma grande área e muito mato, existia um grande rebanho de ovelhas e cabras com o seu ovelheiro. Para os trabalhos de remoção de terras, havia sempre 3 juntas de bois com o seu abegão. Para o transporte das pessoas, havia cavalos, mulas e burros.

Devido à grande produção da Quinta de Vale de Ventos, faziam-se as mais diversas transacções comerciais: gado, azeite, mel, milho, trigo, lã, peles, legumes, lenha e mato. Vinham compradores dos mais diversos pontos do País.

Fonte: Texto sedido pelo Prof. Dr. António Maduro, para o site: http://adepartroteiro.blogspot.com/ / elementos em arquivo acerca da Quinta de Vale de Ventos,  fornecidos no ano de 2000 pelo Dr.Joaquim Guerra ali nascido em 1911.

Sem comentários: